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25 março 2012

O medo do vínculo afetivo: reflexões sobre os relacionamentos contemporâneos.

O medo é uma das emoções mais enraizadas e estruturadas na psique humana. Serve-se principalmente para a proteção e sobrevivência do ser humano. Todos já sentiram ou sentirão algum tipo medo, pois é algo natural e bom, já que coloca todo o organismo em estado de atenção quando uma ameaça se avizinha e tende a colocar em risco algo de fundamental importância para a nossa existência.

O vínculo afetivo é a capacidade (inata e subjetiva) do ser humano em unir-se a uma ou várias pessoas afetivamente, de forma plena, em uma relação de doação de amor e completude. Assim são demonstrações de afeto, a atenção, o toque, o olhar, o abraço, o carinho, a amorosidade, o beijo – não sexuais. É o querer bem de uma amizade, o desejar amor ao outro. A construção de uma relação emocional afetuosa é um laço, um nó que se prende ao outro – de forma não dependente.

O ápice do vínculo afetivo se demonstra na percepção e continuidade da responsabilidade na construção das relações afetivas com os outros. Uma coresponsabilidade afetiva que se traduz em uma frase, bem conhecida, do livro “O Pequeno Príncipe”: “tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”.

O medo do vínculo na pós-contemporaneidade também dialoga na mudança da valoração do ser humano. Se antes, para ser reconhecido como um homem de bem, levava-se em consideração os valores internos: a ética e a moralidade; a nobreza de caráter; a construção familiar; o grau de intelectualização; os ideais sociais que visassem o bem comum. Hoje essa valoração se dá pelo que as pessoas têm e mostram externamente, o quanto consumem, o quanto se projetam socialmente.  Se no século XX a sobrevivência do ser humano dependia da autenticação interior, nos dias atuais vale-se de posturas exteriores, como a busca da jovialidade; a projeção social; sua condição financeira; o número de seguidores tem no twitter, no facebook.

Então, a sobrevivência da espécie, antes interna, passou a ser externa. As pessoas se sentem ameaçadas e chegam a adoecer emocionalmente quando não alcançam essa pseudo-valoração. Jovens são educados a retardarem seus relacionamentos, ou mesmo, o interromperem, se isso de alguma forma atrapalhar sua projeção social, seu sucesso financeiro, sua liberdade, suas buscas pessoais e exteriores. Exemplo característico é o adiamento do casamento e da maternidade para após os trinta anos de idade. Há que se edificar sua dependência financeira em primeiro lugar. As pessoas deixam de fazer vínculos afetivos, fazem network, competem, combatem e afastam os que podem “atrapalhar” seu crescimento. Vivem e um clima de desconfiança e insegurança perante o outro, já que este se tornou uma ameaça ao seu sucesso.

Todos querem um amor romântico, no estilo francês, mas se conflitam e se isolam, pois ao mesmo tempo desejam a sua liberdade, o "viver a vida". E o que vemos nessa sociedade de fluidez efêmera, de consumo alienante? As pessoas se relacionam como fazem compras. Adquiro um produto, se este não atender as minhas expectativas, simples, troco-o por outro, e de preferência mais atualizado e completo. Qualquer vínculo mais profundo que ameace minha liberdade e os ditames da valores atuais devem ser menosprezados, por mais que o sonho romanceado "até que a morte nos separe" seja a busca de todos. Não! Eu não posso! Tenho que ser alguém na vida.

O ser humano é na sua excelência um ser afetivo. O material é importante, mais imprescindível são os relacionamentos afetivos. Essa busca desmedida do individualismo, traduzido na caça prioritária pela felicidade, pela autoestima, pelo gozo a todo custo, pela projeção social e financeira, tem destruído o cerne do equilíbrio psíquico emocional do ser humano.  Com a liberação sexual, precocemente as crianças e jovens são induzidos a buscarem um relacionamento sexual, sem envolvimento afetivo. A arte de acumular conquistas geradas pelo consumismo atinge todas as classes sociais. O outro virou um objeto de consumo, uma válvula de escape para as pressões internas e externas.

O primeiro lugar onde se efetiva a formação equilibrada do vínculo se inicia no processo de gestação nas interações emocionais da mãe com o seu bebê. Os estados emocionais da mãe atingem o feto pela corrente sanguínea, pois suas emoções fazem descarregar hormônios e enzimas que alcançam seu filho pela corrente sanguínea. E todo o processo gestacional, pelas emoções vividas, formam uma base na natureza de como esse futuro ser humano mediará seus vínculos.

É principalmente nos primeiros meses de vida que o bebê aprenderá e repetirá em adulto, como se vincular ao outro. Nesse ponto, a amamentação é um dos pontos chaves para melhor compreender esse processo. O ser tocado e acariciado pela mãe, o tocar nela, o olhar acolhedor, o diálogo amoroso, a contingência materna, a prontidão e atenção devem ser os ingredientes a nutrir essa formação para que futuramente ele venha a buscar vínculos afetivos.


Mas, presos a buscas exteriores, esse momento tem sido negligenciado, terceirizado, mecanizado. Os meses futuros - quando não os três primeiros, que são fundamentais - se incumbem em registrar tal afirmativa, pois os pequenos são deixados com babás, cuidadores, avós - e às vezes todos no mesmo dia. Crescem vendo seus pais preocupados consigo mesmos e com suas vidas profissionais, com sua felicidade e autoestima, com a desculpa de estarem trabalhando tanto para darem uma vida melhor a seus filhos. Como não tiveram o vínculo do afeto – ao contrário, sentem-se abandonados, trocados, rejeitados – nada saberão sobre isso, pois cada um só dá aquilo que recebeu. Como estabelecer um vínculo afetivo profundo com outras pessoas, se o que vivenciou foi superficial? Como estabelecer um vínculo afetivo profundo, se prolifera o sexo pelo orgasmo, e se não estiver bom, procuro quem me satisfaça, pois “a fila anda”? Como ser em empático com os demais se na formação da sua personalidade quando seus pais não foram empáticos com ele? Essas crianças crescem com o medo do vínculo afetivo, como uma ansiedade, um medo em ser diferente dos outros, um medo que o outro atrapalhe a sua sobrevivência.

Temos outro ponto vultoso do medo em se vincular afetivamente a alguém, característico da nossa sociedade das aparências, do externo, do superficial, da realidade virtual. Vive-se para “parecer ser”. Monta-se uma persona que se adéque as exigências sociais – ser forte, competitivo, consumista, insensível ao fracasso alheio, vitorioso, agressivo e suas buscas – e muita vez vive-se dela em outras relações. Forma-se um processo ambivalente entre aquilo que realmente sou e o que demonstro ser – vamos esquecer aquilo que os outros gostariam que eu fosse para reduzir a proposta de entendimento. No convívio diário de uma relação torna-se impossível esconder a verdade interior de cada um. Mostrar-se quem verdadeiramente se é, com suas fragilidades e angústias vai à oposição aos conceitos atuais, e pode fazer com que muitas pessoas se esquivem de um relacionamento e mantenham a postura que a sociedade mendiga – apesar de se manterem solitárias e empobrecidas internamente. Aliás, a maior proposta de um relacionamento são as mudanças internas que se devem fazer a fim de deixar de ser individualista e ser empático e altruísta. Mas vivemos em uma sociedade individualista e egoísta. Vínculos afetivos põem em risco a sobrevivência social.

Observável se faz relatar que os casamentos ainda crescem em acontecer, já que faz parte da pasta social, mas há pouco vínculo afetivo, busca-se em primeiro as projeções sociais e profissionais de cada um. O casal deixa de investir nos vínculos e sonhos do casal, para cuidar da carreira e dos negócios pessoais. Protela-se a paternidade e a maternidade, pois primeiro tem de “estar bem” financeiramente e profissionalmente, para depois pensar em filhos. Muitas vezes decidem não ter filhos para que isso não cause algum empecilho na carreira. Se os casamentos continuam a acontecer como sempre ocorreram, os divórcios relâmpagos crescem assustadoramente, assim como encontrar pessoas no seu terceiro, quarto, quinto casamento.

A relação das amizades também se extraviou. As amizades virtuais estão em voga e todos precisam saber o que se está fazendo e pensando. Você pode ter uma amizade de décadas, pode haver um sentimento de afeição profundo, mas no momento em que se supor – mesmo sendo fantasioso – que de alguma forma algo coloque em risco a sua projeção social, os ganhos financeiros, os interesses pessoais, o resultado será o afastamento. Não se terá relevância os valores morais do outro, o afeto nutrido por décadas, o querer bem. Em uma sociedade individualista, superficial e consumista, pensa-se primeiro nas aparências e nos lucros. Até chamar de amigo, terão que viver juntos às provas do secreto, dos interesses iguais, do dinheiro e do afastamento. Antigamente uma pessoa precisaria de no mínimo quatro ótimos amigos, que serviriam para segurar a alça do seu caixão no dia do seu enterro. Nos dias atuais, não se necessita mais, a pessoa paga antes, e um funcionário da funerária empurra o carrinho até a cova. Mas não se preocupe. Haverá muitas pessoas em seu funeral. Faz parte do compromisso de projeção social.

O vizinho que antes era da família, agora é alguém que desconheço, e limito ao padrão da boa educação vigente: bom dia, boa tarde, boa noite. Não se pode confiar em ninguém nesses tempos de competição. E também as pessoas estão sempre apressadas em suas buscas pessoais e materiais e não tem tempo para o outro. Se não encontra tempo para si, pois há a necessidade em ser agressivamente produtivo, dirá perder tempo com um vizinho. Não se tem tempo de parar e cumprimentar um amigo (a) olhando nos olhos e saber quem é ele e como está; tempo para os filhos; para telefonar e dar feliz aniversário aos amigos e familiares – melhor escrever nas páginas sociais que todos vêem que sou preocupado com minhas amizades.

É oportuno refletir que os animais – nem vou escrever sobre as pessoas estarem trocando vínculos afetivos humanos com animais, chamando-os de filho (a), neto (a), bebê, me recuso – seres irracionais e condicionados geneticamente, instintivamente – como eles sabem que isso é fundamental? – desde o nascimento da prole, articulam brincadeiras e jogos de contato físico-afetivo, até o momento da autonomia de cada espécie, enquanto nós seres humanos, chamados de racionais, dotados de certa inteligência e razão, estamos fazendo sem qualquer reflexão, o rompimento com o outro. Vemos o outro como um objeto para alcançarmos nossos objetivos materiais, deixando de lado a estrutura primária e formadora da sanidade mental do individuo: a família e seus laços de afeto.

A má formação afetiva, principalmente com a mãe – o pai entra na história um pouco depois, mas também tem seu papel – é a principal fonte geradora de diversas psicopatologias no ser humano e, em especial, a dificuldade e o medo do vínculo afetivo. Dessa interação desastrosa é que se formam as famílias disfuncionais, onde não se encontram espaço para as trocas afetivas. Pessoas que tem dificuldades em manter um vínculo afetivo positivo – ou mantém um vínculo negativo – quando expõem seus conflitos repetitivos, sempre mostram que cresceram em um seio familiar de escassez de afeto; viveram o abandono familiar; a rejeição da mãe ou do pai; crenças negativas do amor; foram expostas por pais que fracassaram em suas relações amorosas; duplo vínculo; sofreram de transtorno de ansiedade da separação; estão presas ao passado infantil por não terem amor dos pais; presas no passado por traumas em outras relações e tem medo de se envolver, em conseqüências das mágoas não digeridas de forma adequada; e algumas mais.

O ser humano é essencialmente social, necessariamente afetivo. A saúde mental-emocional é nutrida pelo afeto, pelo carinho, atenção e o amor que a ele são dispensados durante a formação da sua personalidade e que aprende a doar aos outros. Ninguém vive sem amor, aliás, pode viver, mas com graves e contundentes problemas psíquicos. É sabido que em nossa sociedade pós-moderna crescem como bolas de neve o número de doenças emocionais, em todas as classes sociais, dos mais abastados aos mais empobrecidos materialmente, dos intelectuais aos ignorantes do conhecimento, dos belos aos feios. Será que já não se faz tardio tentar reencontrar a medida perdida? O ser humano pode conquistar Marte, mas terá que pagar o preço da falta de amor!

Pense nisso!

Forte Abraço!

Adilson Costa
Psicanálise & Terapia
  

3 comentários:

  1. excepcional muito bom, primeiro texto que me tocou assim tão profundamente...

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  2. Excelente e triste esta realidade.

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  3. Eu me vi, completamente.

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